Eventos da PÓS-GRADUAÇÃO/CEFOR/CÂMARA DOS DEPUTADOS, VII Jornada de Pesquisa e Extensão

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Os clãs políticos no Congresso Nacional: A família Rosado do Rio Grande do Norte e a família Andrada de Minas Gerais.
Vanuccio Medeiros Pimentel, Fernando César Lima

Prédio: CEFOR
Sala: Sala 38
Data: 2016-09-20 08:30  – 10:00
Última alteração: 2016-09-21

Resumo


As relações de parentesco sempre foram um elemento muito importante na formação política do Brasil. Autores como Buarque (2006) já discutiam o “espírito de fidalguia” presente na sociedade brasileira que permitia as elites se arrogarem o direito de governar o país. No entanto, a percepção de que as relações de parentesco são elementos basilares da sociedade brasileira vem de um período anterior ao ensaísmo dos ano 30. Em 1919, Oliveira Viana (2005) traça uma longa interpretação sobre a formação social brasileira que marcou significativamente as gerações posteriores (CARDOSO, 2013).

Em abordagem recente, Barry Ames (2003) aponta que a permissividade do sistema eleitoral e as assimetrias na representação política geraram diferentes tipos de padrões na distribuição dos votos nas eleições proporcionais para a Câmara dos Deputados. Ele define basicamente quatro tipos: 1)Dispersa-compartilhada; 2) Dispersa-Dominante; 3) Concentrada-Compartilhada e 4) Concentrada-Dominante.

Embora Ames (2003) tenha trazido uma importante contribuição na compreensão dos padrões de distribuição espacial dos votos, ele não se ocupou em entender como estes padrões são formados. Especialmente em relação ao padrão concentrado-dominante que possui características de alta dominância em uma faixa contigua de municípios não foi estudado de maneira suficiente. Ele sugere apenas que este tipo de padrão pode ser formado pela aliança do candidato com caciques políticos tradicionais que dispõe de quantidade significativa de votos na região.

A hipótese apresentada neste trabalho é de que o padrão concentrado dominante é tipicamente formado por uma estrutura clânica. Os candidatos que apresentam este tipo de votação estão ancorados em uma estrutura familiar que tem como objetivo controlar o processo político nos municípios e ocupar mais espaços de poder (PIMENTEL, 2014).

A dependência espacial será identificada por meio de dois testes estatísticos: Moran I e LISA. Moran I é uma estatística de correlação global de indicadores utilizada na análise exploratória de dados espaciais que permite identificar a correlação e a dependência espacial de uma série de variáveis, por meio da seguinte razão:

 

Segundo Anselin (1994), por ser uma estatística global de associação espacial, Moran I não incorpora a análise da instabilidade espacial e não permite identificar aglomerações (clusters) ao redor de uma determinada localização ou bolsões não-estacionários além de outliers. Desse modo, será necessária também a utilização do Local Indicators of Spatial Association (LISA) que preenche dois requisitos básicos ausentes em Moran I:

a)      O índice LISA fornece para cada observação uma indicação de conteúdo da significância de aglomerações espaciais de valores similares ao redor da observação;

b)      A soma dos índices LISA para cada observação é proporcional a um indicador global de associação espacial.

Dessa forma, o índice LISA se constitui na decomposição de uma estatística global de associação (Moran I) para cada ponto de observação que permite identificar aglomerações em cada localização ou no conjunto contíguo de localizações onde o índice LISA apresenta significância. Segundo Anselin (1994:4)

De fato, é bastante possível que o padrão local seja uma aberração que o indicador global pode não captar, ou é possível que alguns padrões locais sigam na direção oposta da tendência espacial global [...] Em outras palavras, valores locais que são muito diferentes da média (ou mediana) podem indicar localidades que contribuem mais do que o esperado para a estatística global. Estes podem ser outliers ou altos pontos de influência que podem convidar a uma análise mais profunda.

 

Dessa maneira, o padrão concentrado-dominante apresenta um perfil de votação bastante concentrado em alguns municípios com elevada dominância eleitoral em relação ao total de eleitores na cidade. Este trabalho pretende se concentrar em duas famílias tradicionais cujos membros ocupam e já ocuparam mandatos na Câmara dos Deputados. O objetivo é identificar o padrão de concentração espacial destes grupos familiares e verificar a formação da estrutura política destas famílias com o vistas a compreender a formação do clã político familiar. Os clãs se baseiam amplamente na administração pública local para garantir espaço político e votos suficientes para obter uma vaga na Câmara dos Deputados. Assim, no primeiro momento este trabalho vai identificar o padrão espacial dos deputados destes clãs e em seguida desvendar a estrutura familiar que se ancora na administração pública municipal como principal estratégia para a sobrevivência política.

 

Referências Bibliográficas

 

AMES, Barry. Os entraves da Democracia no Brasil. FGV, Rio de Janeiro, 2003.

ANSELIN, Luc. Local indicators of Spatial Association – LISA, Research Paper 9331, 1994.

CARDOSO, Fernando Henrique. Pensadores que Inventaram o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

HOLANDA. Sergio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

OLIVEIRA VIANNA, Joaquim José. Populações Meridionais do Brasil. Brasília, Edições do Senado Federal, vol. 27. 2005.

PIMENTEL, Vanuccio. A Primazia dos Clãs: A Família na Política Nordestina. Tese de Doutorado, PPGCP/UFPE, 2014.


Palavras-chave


Clãs políticos; Famílias; congresso nacional; Poder político.

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